Palacete Tira-Chapéu a todo vapor: chefs, shows e eventos movimentam o prédio de 1917 na Rua Chile
Dois anos após o restauro, o palacete reúne Claude Troisgros, Preta, temporada de shows, Candlelight, Copa e eventos de marca, e virou o motor da nova fase do Centro Histórico de Salvador.

Quem passa hoje pela esquina da Rua Chile com a Rua do Tira-Chapéu, a poucos passos do Elevador Lacerda, encontra um prédio que não para. Tem almoço executivo de segunda a sexta, jantar com chef estrelado, show de MPB no fim de semana, concerto à luz de velas, DJ no rooftop, talk de moda e evento corporativo ocupando os salões. Dois anos depois da reabertura, o Palacete Tira-Chapéu virou um dos endereços mais movimentados do Centro Histórico de Salvador e um dos principais motores da nova fase da Rua Chile.

A Parada Top mostra como o palacete funciona hoje e conta a história do prédio de 1917 que passou décadas esquecido antes de voltar a brilhar.
Dois anos a todo vapor
O palacete completou dois anos de operação em outubro de 2026 com um jantar a dez mãos, realizado no dia 14, que reuniu Claude Troisgros, Preta, Zezito Ornelas, André Freitas e Jamille Pires em um menu harmonizado de cinco tempos. No cardápio, ingredientes da cozinha baiana em leitura contemporânea, como vieira com doce de leite, chuchu e farinha de copioba, bisque trufado com camarão grelhado e arroz de hauçá.
"Esta celebração reforça o nosso compromisso com a valorização da Rua Chile e do Centro Histórico", afirmou Marcelo Magalhães, presidente do Palacete. O chef francês, que assina o rooftop da casa, resumiu a ligação com Salvador: "Minha relação com a Bahia é muito importante para mim".
Quatro espaços gastronômicos e lojas
O palacete abriga hoje um circuito de lojas e quatro espaços gastronômicos. Três deles concentram a maior parte do movimento. O Pala7, no rooftop, tem cardápio assinado por Claude Troisgros e Zezito Ornelas e uma das vistas mais bonitas da Baía de Todos-os-Santos, com DJs às sextas e aos sábados.
O Preta Tirachapéu, da chef baiana Angeluci Figueiredo, a Preta, um dos nomes de maior destaque na renovação da gastronomia de Salvador e que também comanda um restaurante na Ilha dos Frades, aposta em programação própria, com as Noites de Quinta e a Noite do Blues e Jazz às sextas. O Casarìa funciona do café da manhã ao jantar, com brunch, feijoada aos sábados, pizzas de quinta a domingo e a Serata Casarìa, noite com música ao vivo às quartas.


Até 1º de novembro de 2026, as três casas participam do Salvador Restaurant Week, com menus de entrada, prato principal e sobremesa a R$ 99 no almoço e R$ 119 no jantar, uma boa porta de entrada para quem ainda não conhece o lugar.

Em volta dos restaurantes, o prédio abriga um pequeno circuito de lojas e galerias, com a JAMM Cigar, a Chocolat Du Jour, a Acqua Aroma e a Galeria Usina de Arte, além de marcas de moda como Fause Haten, Kolombina, Pythia e LR Atelier.

Palco fixo da cidade
A agenda cultural virou parte da identidade do palacete. Em 2026, a Estação Rubi levou para o prédio a temporada Tirando o Chapéu para as Artes, que já recebeu Fafá de Belém, Daniel Boaventura, Danilo Caymmi, Claudia Cunha, Diogo Vilela e Armandinho. Na segunda etapa, entre julho e setembro, subiram ao palco Mônica Salmaso, com Alma Lírica Brasileira, Amelinha, celebrando 50 anos de carreira, o musical Coração na Boca, em homenagem a Gonzaguinha, e o espetáculo Rock Forever.
O prédio também entrou no circuito dos concertos Candlelight, com sessões à luz de velas que vão de Vivaldi a tributos a Queen, ABBA, Linkin Park, Taylor Swift e Hans Zimmer, além de clássicos de Natal no fim do ano.

Copa, São João e Carnaval
O calendário do palacete acompanha o da cidade. Entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, o prédio foi a Embaixada da Copa do Mundo FIFA 2026 em Salvador, em parceria com a Smirnoff, com transmissão dos jogos nos três restaurantes até a final. Em junho, as Quintas Forrozeiras levaram Marquinhos Café, Del Feliz e Gel Barbosa aos salões, com buffet temático no Casarìa. "Queremos que o público viva experiências que conectem cultura, entretenimento, gastronomia e grandes acontecimentos", disse Rebeca Cavalcante, diretora de eventos do palacete.
No Carnaval de 2025, o baile pré-carnavalesco com tema Brasilidade reuniu Alexandre Peixe, Jau e uma participação especial de Margareth Menezes.
Moda, ideias e negócios
Os salões restaurados também viraram cenário para eventos de marca e de conteúdo. Em novembro de 2025, o jornalista Bruno Astuto, colunista da Vogue Brasil e do caderno Ela, de O Globo, comandou um talk sobre estilo e cultura da elegância, com mediação do ator Juan Alba, embaixador artístico e cultural do palacete. Neste sábado, 24 de outubro, a Escola Concept ocupa o prédio das 9h às 18h para comemorar dez anos em Salvador, com exposições, rodas de conversa e apresentações artísticas, com entrada gratuita.
De sede dos comerciários a palacete
Por trás do movimento de hoje existe mais de um século de história. O palacete nasceu como sede da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia, a AECBA, idealizada e financiada pelo comendador Bernardo Martins Catharino, um dos empresários mais influentes da Bahia na virada do século. As obras começaram em junho de 1916 e o prédio foi inaugurado em 30 de dezembro de 1917, ano que ficou gravado em algarismos romanos no alto da fachada, MCMXVII. As fontes divergem sobre a autoria do projeto: a Elysium, que conduziu o restauro, atribui a concepção, de 1914, ao arquiteto italiano Rossi Baptista, enquanto outros registros citam o engenheiro e arquiteto italiano Alberto Borelli.

Em 1918, o comendador e a esposa, Úrsula da Costa Martins Catharino, doaram o imóvel à associação. Por décadas, o prédio recebeu reuniões, apresentações musicais e cursos profissionalizantes, incluindo iniciativas pioneiras de formação profissional para mulheres. A arquitetura eclética, com torre de esquina, cúpula, balcões e atlantes esculpidos na fachada, fazia do palacete uma vitrine da Rua Chile no seu auge.

Abandono, tombamento e restauro
Com o esvaziamento do Centro Antigo, o prédio chegou aos anos 2010 com os andares superiores desocupados. Em 2011, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, o IPAC, pelo Decreto nº 13.151/2011, que protege os três pavimentos e as fachadas. Por volta de 2015, o imóvel foi comprado pelo Grupo Fera, de Antônio Mazzafera, o mesmo do Fera Palace Hotel, e a obra atravessou anos de atrasos.

O retrofit ganhou ritmo em 2023, sob coordenação da Elysium Sociedade Cultural, em parceria com a Tira-Chapéu Empreendimentos e com patrocínio da Eletrobras. Cerca de duas mil pessoas, entre carpinteiros, gesseiros e restauradores, trabalharam na obra, que recuperou os vitrais da escadaria central, a escada em caracol de madeira torneada, o forro em tela deployé do salão, a marchetaria do piso e os azulejos decorados.
A reabertura aconteceu em 2 de setembro de 2024, com o maestro João Carlos Martins e Carlinhos Brown no Piano-Bar, criado pela designer Nathália Velame no antigo Salão dos Fundadores, de nove metros e meio de pé-direito. A mostra Casas Conceito 2024, que ocupou o prédio até novembro daquele ano, recebeu mais de 25 mil visitantes.
O que o palacete representa

O Tira-Chapéu se tornou a prova mais visível de que patrimônio só se sustenta quando tem uso, gente circulando e programação o ano inteiro. Ao lado do Fera Palace e de novos endereços como o Chile 27 e o rooftop Peixe Voador, o palacete ajuda a recolocar a Rua Chile como polo de gastronomia, hospitalidade e cultura de alto padrão, num trecho da cidade que por muito tempo foi sinônimo de abandono.
A própria Rua Chile é uma atração. Primeira rua do Brasil a receber um nome oficial, ela reúne hoje prédios restaurados, cafés, tabacarias e lojas, com movimento de dia e à noite. A virada começou em 2017, com a abertura do Fera Palace Hotel no antigo Palace Hotel, prédio de 1934 em estilo art déco inspirado no Flatiron Building, de Nova York. O hotel manteve fachada, janelas, pisos e a cúpula de cobre originais e levou para o rooftop piscina, spa e o Fera Lounge Bar, com vista para a Baía de Todos-os-Santos.

Bem em frente ao palacete está o Elevador Lacerda, que há mais de 150 anos liga a Cidade Alta à Cidade Baixa. O passeio pode continuar até o Mercado Modelo, inaugurado em 1912, e a Cidade da Música da Bahia, do outro lado da praça.

Serviço
Palacete Tira-Chapéu: Rua Chile, nº 1, esquina com a Rua do Tira-Chapéu, Centro Histórico, Salvador.
Almoço nos três restaurantes de segunda a sexta, das 12h às 15h. Jantar no Casarìa todos os dias, das 18h às 22h, e no Preta de domingo a quinta, das 18h às 22h. Reservas pelos perfis dos restaurantes no Instagram. Shows e concertos têm ingressos vendidos pela Estação Rubi e pela plataforma Fever.
Fonte: Revista Azul (ed. 151), Revista Yacht, Bahia Notícias, Alô Alô Bahia, Correio, Elysium, IPAC
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